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A Influência do Pensamento Mágico na Educação

Publicado por galharini em setembro 14, 2010

A Influência do Pensamento Mágico na Educação

Humberto Oliveira Ausec

 


A Educação não é termo de fácil definição, e em alguns casos precisa e um sobrenome de identificação, como por exemplo educação formal, que contrasta com a educação informal, ou então educação moral, técnica, a educação enquanto ministério (Ministério da Educação), entre outras possibilidades aqui não elencadas. Para localizar o objeto deste texto, enquanto vulnerável ao pensamento mágico, a Educação tratada será aquela que acontece nas escolas, que tem professores como agentes prioritários do processo de modificação das habilidades dos estudantes.

Localizado o escopo dos procedimentos educacionais, enfatiza-se que não caberá uma distinção significativa de faixa etária. Um individuo em nosso pais e em outros poderá freqüentar uma escola/faculdade/universidade em qualquer período da vida. No Brasil especificamente começando pela creche até num pós-doutorado.

Uma mágica, executada por um mágico, tem diferentes efeitos numa platéia. Se for em uma escola de ensino fundamental, as crianças se deslumbrarão com um coelho ou pomba saindo de uma cartola e a atenção que dispensam ao espetáculo é função de seu não entendimento. As crianças mais velhas talvez aproveitem o espetáculo de outra forma, e apesar de deslumbradas e não entendendo como aquelas coisas são possíveis, entendem uma coisa a mais que as crianças menores, que o coelho que saiu da cartola não apareceu do nada. A mágica para as crianças mais velhas está em conseguir enganá-las.

O pensamento mágico, portanto, resulta em diferentes níveis de procedimentos e envolvimento em relação à magia (ou “magia”). Procurar o dom de fazer aparecer coelhos envolve pensamento mágico e procurar aprender os truques necessários para se tornar um mágico profissional não envolve esta modalidade de pensamento.

Para as crianças mais novas, o pensamento mágico está ligado ao seu não entendimento, porém o que de fato o caracteriza é que a escola não parece insistir em procedimentos que resultem em coelhos. Para as crianças mais velhas e adolescentes a escola, apesar de não ensiná-los a serem mágicos profissionais, os deixarão, quem sabe, mais espertos pra que possam, assim como os mágicos profissionais, conseguir coisas que pareçam impossíveis. No primeiro caso a escola soa mais supérflua que no segundo caso.

Analisando um espetáculo como este que ocorreria hipoteticamente a um público assim heterogêneo, percebe-se que faz parte de um desenvolvimento esperado que as crianças, com o tempo, abandonem o pensamento mágico, talvez porque ele não faça de fato aparecer coelhos de lugar nenhum. Também porque entender de como uma luz acende e como um avião pode voar seja incompatível com certos misticismos e o pensamento mágico vá perdendo a força, o sentido.

Que fique claro que o pensamento mágico não é uma derivação direta do não entendimento, mas da ausência de procedimentos que resultem em entendimento. Para as pessoas que lêem este texto bastaria uma pesquisa na internet, uma conversa com um mágico profissional ou uma observação cuidadosa de um show de mágica para entender, tanto quanto o mágico que nada fora criado do nada.

O pensamento mágico se instala então porque faltam estratégias de aprendizagem, tais como observação sistemática, descrições precisas, busca de informações relevantes, tratamento estatísticos, argumentação lógica e que reduzam as incoerências de um sistema explicativo. Não se instala porque não se entende, mas porque não se consegue um caminho promissor de entendimento.

A ignorância de um assunto pode e resulta em duas possibilidades. A primeira delas e a aplicação de procedimentos que levem ao entendimento e a ignorância dá lugar a algum entendimento num processo sem fim chamado genericamente de ciência. A segunda possibilidade é pensar de forma mágica. Dentre uma infinidade de possibilidades explicativas possíveis, já que os procedimentos de observação do mundo não ocorrem para restringir essas possibilidades, muitas “explicações” surgem, e via de regra ficarão apenas aquelas que resultam em alguma possibilidade de controle social – um mito.

De certos procedimentos resulta a ciência, entendimento provisório, cumulativo e partilhado. Do pensamento mágico surgem os mitos, sem evidências, subjetivo, e potencialmente danoso.

As pessoas em certos casos apesar de não pensarem de forma mágica num assunto, se valem dessa possibilidade em outras. Não raro vemos as mães que sabem que o “velho-do-saco” não existe e mesmo assim usam de certa chantagem/ameaças para com as crianças. O mágico profissional também o faz mas sem ameaças, o máximo que consegue é entreter uma platéia e receber por isso.

O efeito potencialmente danoso do pensamento mágico começa a tomar corpo quando os mitos que dele decorrem sabotam a cultura pelo incentivo indireto do não entendimento. E a Educação, nos moldes definidos no inicio deste texto, nos fornecerá alguns exemplos de como isso acontece.

O pensamento mágico não afeta apenas estudantes mais novos e torna-se problemático quando estes estudantes não conseguem se livrar dele. O pensamento mágico decorre de uma inabilidade procedimental em se entender algo e não da ignorância de algo. De forma que pode ser encontrado distribuído nos estudantes, educadores, famílias, mídia, religião, amigos, mas que afetarão a forma como uma pessoa passa pela escola.

Se por um lado crianças mais novas são mais suscetíveis ao pensamento mágico, não quer dizer que as mais velhas não o sejam em outros assuntos, e que os professores em outros e assim por diante. E existindo a possibilidade, vários se aproveitarão disso mais do que combaterão isso. Apesar das mães não pretenderem seu filhos acreditando em Papai Noel por toda a vida, se valem da crença dos filhos pra conseguir algo deles perto do Natal.

No passado ataques epilépticos eram considerados possessão demoníaca. Hoje esta explicação mágica perdeu a força em função do entendimento do funcionamento do cérebro e as pessoas preferem tomar uma medicação a se expor a uma sessão de exorcismo (em todos os casos? – parece que não).

Uma criança na escola é bombardeada por alternativas aos procedimentos próprios da ciência. Estuda como o sistema reprodutor humano funciona e convive com histórias sobre cegonhas e concepção virginal; avanços da medicina e exorcismos; aulas sobre geografia e política e programas televisivos de domingo a tarde; aulas de filosofia e horóscopo; tenha uma opinião desde que seja equivalente à minha; ou pior: tenha uma opinião em vez de conhecer sobre um assunto.

São tantas as possibilidades explicativas e pseudo-explicativas que um conhecimento útil e fundamentado fica “escondido” neste mar de afirmações sobre qualquer coisa. Quem decide sobre o que uma criança na escola ou um estudante em uma faculdade devem estudar não está, por si mesmo, em plenas condições de decidir, afinal também reproduz suas formas de não entendimento com aparência de assuntos relevantes. Estar certo pode ser função mais de coincidência do que de procedimentos que fundamentem sua prática.

A educação que acontece nas escolas passa pelo pátio, pelo material didático utilizado, pela qualificação dos professores, pela postura do diretor, por políticas públicas, pelas famílias de onde vêm os estudantes. Não é sequer possível localizar numa pessoa ou classe o mérito ou a culpa de nada em educação. Mas o que é fato é que a educação afeta a vida das pessoas, as crianças não seriam os adolescentes de hoje se em parte a escola não tivesse sido o que foi. Os estudantes universitários são como são em parte pelo ensino médio que tiveram, e os profissionais são como são devido a formação universitária que tiveram ou pela formação universitária que outros tiveram.

A última frase do parágrafo anterior é especialmente importante na medida em que aponta que a escola não afeta apenas os que por ela passaram, mas se algumas pessoas hoje estão em determinados empregos, é porque alguns psicólogos tiveram determinada formação e por isso entenderam que ele poderia estar em determinada empresa ou não. Um analfabeto que vai ao medico sofre os efeitos da educação como um todo, tanto nos seus aspectos positivos quanto negativos.

O pensamento mágico, ou a falta de procedimentos para se entender algo ou excluir falsas explicações perpassam a sociedade como um todo e via de regra é usada como meio de opressão a quem pouco consegue se defender da enganação, o que nos leva a concluir que a escola em qualquer sentido, mesmo além das delimitações deste texto, também será transpassada por esta modalidade de pensamento.

Mas algumas tarefas cabem mais a uma parte das pessoas do que outras. Num mundo ideal, o irracionalismo mitológico deveria ser combatido por todos, sem exceção, mas quem está em melhores condições pra isso? A governabilidade de uma nação não melhora com o desenvolvimento intelectual das pessoas, como parece pensar os governantes que pouco investem na educação. O sistema monetário se vale da nossa ignorância de como é criado o dinheiro assim como uma criança mais velha ludibria uma mais nova trocando quantidades de notas apesar de seu baixo poder de compra.

A religião insiste no discurso que felizes aqueles que crêem sem evidências e pouco se pode esperar dela enquanto interessada em pessoas conhecendo por elas mesmas, melhor que entendam por instrução.

Nascer numa família “científica” ou “mágica” é questão probabilidade. O lugar mais apropriado e institucionalizado para o combate do pensamento mágico, se é que haja consenso que deva mesmo ser combatido, é a escola.

Neste sentido a escola é descrita como permeada pelo discurso mágico, mas deveria ser foco de resistência deste discurso. As instituições de ensino, em todos os seus níveis, deveriam se desvincular, mais que a média da sociedade, dos misticismos cotidianos e desenvolver nas crianças/jovens/adultos a habilidade de avaliarem um mundo em constante modificação, cheio de surpresas e desafios e de infinitas possibilidades.

Mas infelizmente não é assim que acontece. A escola incentiva o “achismo”. Todos têm direito a uma opinião, apesar de nenhuma obrigação em fundamentá-la. Os estudantes mais críticos o são não por causa da escola, mas apesar dela. Opiniões e crenças são elevadas ao estatus de conhecimento válido e útil arbitrariamente por uma questão de respeito às opiniões e crenças. Mas quem de fato merece respeito? As opiniões e as crenças? Ou as pessoas?

A permissividade e frouxidão argumentativa tomam a forma de diplomacia e respeito a diversidade. Assuntos importantes deixam de ser tratados para não ofender o estudante. Como ensinar reprodução em biologia sem ofender a crença de que somos trazidos por cegonhas? Ou como ensinar evolução sem ofender a crença criacionista? Como ensinar geografia sem ofender a crença de quem considere a Terra achatada?

Em nome da diplomacia e do controle social deliberado o pensamento mágico não só compõe a educação que acontece nas escolas como é reproduzido por elas. Assim com um vírus, o pensamento mágico se instala e se multiplica em procedimentos que prescindam de evidencias ou regularidades, que por sua vez aumentam a ignorância das pessoas que ficarão ainda mais inábeis em encontrar evidencias. Num círculo vicioso e pouco promissor.

Para os adeptos do pensamento mágico talvez a situação não seja tão ruim. Respeita-se a liberdade das pessoas de pensar como quiserem, a crença dá esperanças, acalma, adestra, planifica todos numa multidão de ignorantes. Quanta condescendência… Porém as pessoas só estão assim dependentes de qualquer explicação que seja por que lhe faltam os meios, os procedimentos de entendimento.

Será que se as pessoas tivessem mais acesso às pesquisas sobre como interagem os astros (astronomia) elas acreditariam em horóscopos? Quantos entre os astrônomos acreditam em horóscopo? Estudar sistematicamente um assunto, com procedimentos objetivos diminui drasticamente a possibilidade de desenvolver crenças a respeito. Só se precisa acreditar que a água endureceu no freezer até o momento em que se coloca o dedo na forma de gelo. Após isso a crença perde o sentido. Se colocar o dedo não é possível, observações sistemáticas do tempo necessário para que a água endurecesse no passado nos dão boas previsões se poderei ou não contar com gelo num determinado horário.

Em assuntos cujo procedimento que resulte em entendimento não for tão simplificado quanto o de ir até a geladeira e colocar o dedo dentro de uma forma, florescem explicações miraculosas, não porque faltem melhores, mas falta o acesso a elas. A escola, enquanto instituição de ensino não provê o acesso a informações em respeito aos estudantes. Isso mesmo?

Segundo o jornal inglês “Timesonline”, professores no Reino Unido estão evitando abordar temas como Holocausto e Cruzadas para não ofender crianças de certas etnias ou grupos. As concepções históricas em certos temas são conflitantes com aquelas ensinadas pelos pais, de forma que o conflito é evitado, mas segundo a reportagem, algumas crianças podem ficar “fora da história”.

Quando uma cultura qualquer, incluindo a brasileira comete atrocidades contra animais ou seres humanos, isso é facilmente justificado como um aspecto cultural que deva ser respeitado. Mas deve ser respeitado apenas por ser um aspecto cultural, por nada mais.

Seja desfigurando genitálias femininas na África ou sacrificando animais de forma cruel, qualquer aspecto cultural, inclusive uma crença religiosa, passa a ter um respeito imerecido apenas por ser o que é, independentemente do mal que traz consigo.

Se a escola não oferecer resistência a isso ela também não permanece neutra. Afinal seus professores e alunos não são neutros. Se a escola evitar os assuntos que sejam potencialmente ofensivos a quem quer que seja, ela não terá absolutamente nada a fazer.

Tudo é potencialmente ofensivo a alguém e apenas terão mais respeito, mesmo que imerecido, àqueles que tiverem mais poder político (-monetário).

Na impossibilidade de julgar com precisão qual é a hipótese mais plausível a ser ensinada na escola, talvez fosse mais interessante desenvolver os procedimentos de aprendizagem que deixassem os estudantes mais hábeis em conseguir fazer o que nem a escola vem conseguindo, desenvolver um entendimento do mundo mais livre de censuras.

A liberdade de opinião é importante para o desenvolvimento de qualquer pessoa, na impossibilidade de dizer o que pensa em qualquer contexto, torna-se menos provável a contribuição de outrem às próprias idéias, porém a liberdade de opinião não é um fim em si mesmo. Mas a precursora do entendimento entre as pessoas.

A tolerância hoje em voga soa como um misto de covardia e prepotência. Covardia no sentido que pouco faço para mudar um “estado de coisas”, apenas ele será tolerado. E prepotência porque nada farei para mudar meu contexto de vida, as pessoas que hão de me tolerar.

A escola abre mão dos espaços de convivência e entendimento baseado em procedimentos públicos de busca de informação, para tolerar misticismos e preconceitos arraigados na sociedade. Porém dois procedimentos parecem combater uma prática escolar (que envolve professores, governo e estudantes) de relegar à escola este papel menor de reproduzir ou perpetuar preconceitos irracionais.

O primeiro deles é a insistência aumentada nas atividades que desenvolvam um estudante crítico à luz da ciência e não do pensamento mágico, o que significa, na prática, desenvolver habilidades de busca de informação em locais apropriados, analises mais abrangentes, observação de eventos relevantes, afirmações precisas e passiveis de críticas por outros, um discurso menos vago e confuso entre outras coisas que já estão disponíveis, apenas pouco acessadas.

O segundo procedimento, afeta e é afetado pelo primeiro. A ausência de censura temática nas instituições de ensino. Na escola deve ser possível se falar de qualquer coisa. As pessoas já não discutem sexo, religião e futebol, nos seus locais de trabalho, na família, na igreja, no bar, entre outros locais, lá elas deverão se tolerar e já se toleram.

Um jogador de futebol tolera o outro de religião diferente para permanecer no mesmo time. Um religioso tolera o outro de outra etnia (nem sempre), num bar se tolera alguém bêbado e falando “mole”. Mas não se toleram todos. Uma religião não tolera um discurso religioso diferente tão facilmente, busca-se em primeira instância o convencimento, depois recorre às ameaças e até a excomunhão.

Torcidas de futebol agridem indivíduos de torcidas de outros times, pessoas não são contratadas em função de sua aparência, outras são demitidas pela linguagem que usam, outras retiradas de um time pela falta de pontaria que apresentam.

A escola deve tolerar o estudante, os estudantes devem tolerar os professores, todos devem se tolerar, mas não precisam tolerar suas crenças! Ali é o fórum privilegiado de entendimento entre as pessoas e qualquer assunto pode e deve ser discutido, sem exceção, sem exceção mesmo.

Como fazer um curso de psicologia não discutindo sexualidade humana? Ou moralidade? Ou religiosidade? Uma opinião do estudante sobre virgindade merece tanto respeito quanto sua opinião sobre a melhor marca de carro para se comprar.

Ele pode ter opinião a respeito, mas que fique claro que suas opiniões por si mesmas não afetam o desempenho de carro nenhum. Opiniões sobre qualquer assunto deveriam ser constantemente substituídas por pesquisas sobre estes assuntos e não por um procedimento ingênuo de tolerância de opiniões diferentes.

A escola pode e deve desconsiderar a opinião do estudante sobre qualquer assunto e considerar, por sua vez o estudante como alguém mais digno de consideração. Dar a ele os meios para se desenvolver intelectualmente mais do que meios de evitar conflitos. Conflitos estes que são próprios da ignorância das pessoas. A escola, portanto, pode e deve discutir qualquer assunto e fomentar os meios de entendimento, de forma que a tolerância (convivência forçada) não seja sua finalidade.

Ir à escola para não discutir coisas importantes e ainda ter que tolerar quem tem opiniões distintas. Melhor seria ficar em casa. Ou então ir a escola, discutir qualquer assunto com respeito a quem argumenta e não tolerar que o achismo dogmático impeça essa possibilidade.

 

Referências Bibliográficas e Bibliografia

 

http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/education/article1600686.ece FREAN, Alexandra. Schools drop Holocaust lessons to avoid offence From The Times. April 2, 2007.

HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro, 1989.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1989.

 

 

 

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