Fundação Assisense de Cultura “Joshey Leão”
MUSEU DE ARTE PRIMITIVA “JOSÉ NAZARENO MIMESSI”
RANCHINHO (Sebastião Theodoro Paulino da Silva)
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, nasceu às 4h do dia 7 de janeiro de 1923, na fazenda do Zeca Antonio, em Água São Bartolomeu, próxima à estrada Assis-Lutécia. Filho de José Paulino da Silva e Maria Flauzina de Jesus, naturais do estado de Minas Gerais. Não aprendeu a ler e escrever e, a única experiência escolar que ele demonstrou foi grande interesse em manipular o lápis. Por ser dispersivo, não correspondia ao mundo das palavras até que aos 22 anos de idade, o ato de desenhar já ocupava um lugar importante na sua vida.
Ranchinho chegou em Assis meados da década de 40. Nesta época começou a trabalhar com João Romeiro (conhecido como João Garapeiro), fazendo mover a manivela do carrinho de garapa. Este foi seu primeiro trabalho fixo. Perambular pela cidade sempre foi uma prática comum na vida do nosso pintor e já na década de 50 caminhava acompanhado de uma maleta, onde guardava o seu precário material para que, no momento certo, pudesse sacar do bolso o papel surrado e a caneta hidrocor e, então, mão e olhos interagissem com um objetivo: criar formas, estudar a profundidade das coisas, procurava sempre estar onde as coisas aconteciam e nos seus cadernos, rapidamente registrava os fatos que ocorriam na cidade, não de forma imparcial, sempre numa interpretação pessoal, como um cronista.
Foi descoberto pelo Sr. José Nazareno Mimessi que já era, nessa época, um apreciador das artes plásticas e estudioso, autoditada, sobre arte naif, reconheceu naquele homem maltrapilho e de andar cambaleante, Mimessi começou a incentivá-lo, comprando seus desenhos e cedendo material, enquanto ele trabalhava num dos cômodos na técnica de sua modesta casa, agora transformado em atelier. Aos poucos, seu protetor introduziu-o na técnica de guache sobre papelão que, em pouco tempo, passou a dominar com destreza. Não freqüentou galerias e museu, tampouco estudou história. Ele é autêntico autodidata. Como não sabia escrever, seu incentivador fazia-o sujar o polegar direito com tinta de carimbo para deixar a impressão digital no verso de seus desenhos, mas esta prática o incomodava. Então, Nazareno resolveu ensina-lo a escrever “Ranchinho” e, com o auxilio dos familiares, ele aprendeu a escrever, ou melhor, desenhar com letras de forma seu nome de batismo- Sebastião.Somente em 1977, após uma observação de um dos seus sobrinhos, passou a assinar seus desenhos e pinturas com seu apelido.
Ranchinho é constituído de tamanha simplicidade, assim como ignorou a formação comum à maioria dos pintores, também ignorou as transações comerciais que envolvem o mercado das artes. Ele desconhece o conceito de valor monetário e tantos outros, comuns no dia-a-dia dos artistas.
Ranchinho , em dezembro de 1971, expôs pela primeira vez três de seus trabalhos na 1ª exposição de Artes Plásticas de Assis quando recebeu Menção Honrosa. Participou de outras exposições individuais e coletivas de grande importância, como Bienal de São Paulo de 1976. Nesse mesmo ano foi tema de uma crônica de Lourenço Diaféria editada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo. Em 1977 foi objeto de análise de Américo Pellegrini filho em seu livro Crônica Informativa de Cinco Pintores Folclóricos. Também foi apreciado por uma das maiores crítica de arte do país, Radha Abramo, numa matéria editada no caderno ilustrada do Jornal Folha São Paulo em julho de 1985. Participou também da exposição Brasil 500 Anos na Bienal de São Paulo. Se trabalho foi tema de uma matéria escrita por Rui Moreira Leite para a revista Veja de 30 de julho de 1986. Desde então, participou de mais ou menos 20 exposições. Já pintou em média, 2000 quadros, segundo seu sobrinho Juvenil que, desde a década de 70, acompanha de perto o trabalho do tio.
Atualmente, Ranchinho é uma das pessoas mais populares de Assis; tornou-se figura folclórica; é personagem de histórias- reais ou lendárias- relatadas pelos narradores da cidade. Dizem ainda que ele se senta no mesmo lugar na igreja e, se estiver alguém, seja lá quem for em lugar, ele vai rodeando, deixando a pessoa encabulada até que a mesma devolva o seu assento.
Seus trabalhos não sofreram influencias dos meios artísticos, pois Ranchinho não teve nenhum mestre, não seguiu e nem conhece o trabalho de outros pintores. O seu aprimoramento de sua obra se deu por intermédio de sua sensibilidade visual.
Ranchinho não faz quadros por encomenda; não adianta pedir ou insistir para que desenhe isto ou aquilo, porque somente realiza o que tem sentido para ele. Dizem que, certa vez, uma pessoa bastante conhecida em Assis passou muito tempo insistindo para que ele pintasse a fachada de sua casa e ele nunca atendia o pedido.
Através da biografia escrita por Mimessi, podemos caracterizar como era o fazer artístico de Ranchinho na década de 70, quando pintava com guache sobre papel..
Pega um pincel, dá uma pincelada de uma cor, lava ele na xícara, cuja água vai ficando com todas as cores, pega outro, trabalha com uma terceira, lava o pincel no pano e vai colorindo tudo. Colorindo a esmo; não colore de fio a pavio uma figura, um objeto do quadro. Pula. Pinta ora alguma coisa da direita, depois dá um retoque, vai noutra cor, conserta aqui, reforça ali, até tapar o quadro com cores, quando então ele já está pronto.
Depois que julga que o quadro está pronto, coloca-o de pé a uma distância de um ou dois metros (…) dá uns dois ou três retoques. Faz qualquer quadro no máximo em trinta minutos, seja feio ou bonito. Interrompe-lo no momento que for, sem prejudicar a qualidade da mesma. É espontâneo e instantâneo.
Ranchinho começou a trabalhar, basicamente com guache sobre papelão, pois não tinha condições de adquirir outro material apropriado para a pintura. O reconhecimento de seu trabalho pelo publico permitiu-lhe, aos poucos, melhor sua condição de vida e, na década de 80, praticamente, realizar um grande sonho: trabalhar com tinta a óleo sobre tela.
Posteriormente, ele passou a pintar com tinta acrílica sobre chapa de eucatex forrada de algodão e, em seguida, com a mesma tinta sobre tela. Sua adaptação e seu domínio sobre este material foi tão rápido quanto com sua técnica do guache.
No caso de Ranchinho, quem prepara os suportes, as tintas e compra os pincéis é o seu sobrinho, Juvenil. Por sua vez ele pesquisa; guarda recortes de jornal, revistas e fotografias, que despertam nele algum interesse e que, eventualmente, possam vir a ser motivo de um estudo. Além disso, conhece muito bem as exigências e os segredos da matéria-prima de seu trabalho.
Como mencionamos acima, Ranchinho pinta sempre à noite.
Como podemos constar, Ranchinho não segue nenhum estilo a não ser aquele que ele próprio criou, e esta é uma das características da arte naif.
Referência bibliográfica: Silva, Marta Dantas da. De olho no passado: A pintura de Ranchinho. Assis/SP, 1997.

